segunda-feira, abril 23, 2007


















25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas (1977)

segunda-feira, abril 09, 2007














16 de Abril, Dia Mundial da Voz
O Dia Mundial da Voz, tem como objectivo a sensibilização para a importância da voz, suas alterações e os cuidados a ter, para manter uma voz saudável.

Cuidados a ter com a Voz

Manter uma voz saudável, requer alguns cuidados diários:

Hidratação: beba água, em pequenos golos, ao longo do dia, à temperatura natural (2l/dia);

Faça gargarejos com uma solução salina em água tépida;

Lave as fossas nasais com soluções aquosas (como o soro fisiológico) ou vaporizações diárias;

Reduza a ingestão de bebidas como o álcool, café, bebidas com cafeína, chá preto e bebidas gaseificadas e o consumo de pastilhas à base de menta, que podem provocar desidratação;

Não fume, evite frequentar ambientes com fumo;

Evite ambientes com ar condicionado;

Faça repouso vocal, após o uso prolongado de voz ou uso vocal de intensidade muito forte;

Utilize uma articulação adequada (com movimentos amplos da língua, dos lábios), velocidade do discurso moderada;

Evite usar a voz (em duração e intensidade) sempre que esteja “constipado”, ou em crises de alergias;

Reduza o consumo de condimentos na alimentação (como o piripiri) provocam azia e má digestão;


Mantenha um estilo de vida saudável (faça desporto, tenha uma alimentação equilibrada, durma no mínimo 8h, passeie, relaxe e divirta-se).

terça-feira, março 27, 2007













27 de Março 2007
DIA MUNDIAL DO TEATRO
MENSAGEM PORTUGUESA


Neste Dia Mundial do Teatro quero manifestar a minha admiração por todos aqueles que ao longo dos tempos dignificaram e fizeram desta arte e profissão um exemplo de vida, de manifestação artística e de mensagem política. Quem suportou a violência da censura de antes do 25 de Abril e recebeu a missão de comunicar e criar em liberdade, não pode ignorar a sua responsabilidade. A todos aqueles que neste momento são gente de teatro, uma palavra de amizade, de solidariedade e confiança num futuro que estamos a criar. Posso dizer que ser de teatro é ser maior, é ser diferente, é ser responsável. Vivemos numa época de preocupação com a guerra do Iraque, com a fome, com as desigualdades sociais, com a prostituição, o racismo e o flagelo da droga. Trabalhamos para um público que partilha das nossas preocupações. Tenho o maior orgulho nos meus colegas e nos meus amigos. O egoísmo de que nos acusam é resultado da paixão que temos pela nossa profissão. Um profissional vive, ri, sofre e ama profundamente o teatro.É estranho quando nos deparamos com situações que pensamos que sabemos resolver. Quanto mais sabemos, mais temos a noção de que ainda há muito para aprender. Aos mais novos, àqueles que por vezes terminam os seus cursos e depois ficam à espera de uma oportunidade, àqueles em quem eu acredito que serão o teatro do futuro, que serão os responsáveis por esta profissão maravilhosa, única. Garanto que vale a pena! O teatro não esquece aqueles que o amam e o servem sem se servirem dele. A vossa oportunidade chegará. Por último, uma palavra muito especial, um aplauso diferente para Isabel de Castro e Canto e Castro. Assim se faz o Teatro.

(escrita pelo encenador Carlos Avilez, a convite da Sociedade Portuguesa de Autores)

segunda-feira, março 19, 2007


















Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela...

Alberto Caeiro, Não basta abrir a janela

sexta-feira, março 09, 2007

















"O Museu Salazar (rebaptizado Centro de Estudos sobre o Estado
Novo), que a Câmara Municipal de Santa Comba Dão pretende
desenvolver, no recatado berço do ditador, é uma casa assombrada.
Com um planeamento burlesco. A eira será restaurante e casa de chá.
É para o convívio, portanto. Escapa a parte que, supostamente, será
dedicada aos estudos. Mas que é inaceitável nesta localização. A
exposição consiste no estojo da barba, na mala de viagem,
condecorações e um punhado de manuscritos. Talvez o Teatro Nacional
D. Maria II possa recomendar o actor - que procura nos jornais para
representar Salazar - para um role-play intimista. Enfim...
cangalhada sem relevância científica. O espólio importante - tratado
já depois do 25 de Abril - encontra-se na Torre do Tombo. E o Estado
apenas deverá financiar o museu se este contribuir, de facto, para o
estudo do Estado Novo e não para a homenagem e revivalismo.
O objectivo alegado é o emprego e o turismo. Depois de morto é que o
déspota vai desenvolver o País e abri-lo ao turismo... arrebatando
com um excursionismo fetichista que oferece aos visitantes pincéis
da barba? O museu custa cinco milhões de euros, a um Executivo em
dificuldades. Além do já garantido emprego para um herdeiro do
ditador - 24 mil euros anuais vitalícios - não se vê que dinamismo
poderá trazer. Mesmo que existisse. A História e a memória não são,
certamente, menos importantes. Santa Comba não quererá a farda do
pide que assassinou Humberto Delgado?
O espectro de Salazar anda por aí. A RTP geriu atabalhoadamente o
concurso Os Grandes Portugueses quanto à sua nomeação e votação,
com consequências rançosas. O ensino da glória dos Descobrimentos
e a branca sobre a Guerra Colonial pouco diferem da História adestrada
pela ditadura. É assim, a nossa democracia. Não constrói valores e
motivos de identificação. Sobram medalhas e saudades. Tal aponta o
estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Os portugueses são dos mais nacionalistas do mundo. À conta da
nostalgia. Mas não são patriotas. Não criticam o passado, não gostam
do presente nem disputam o futuro. Basta comparar o à-vontade com
que se lança este museu com as contrariedades para colocar uma
simples placa-testemunho dos presos e torturados na ex-sede da PIDE
para perceber que a nossa democracia ainda tem muito a fazer. Antes
que se torne num fantasma."

Joana Amaral Dias, Diário de Notícias

quinta-feira, março 08, 2007














Lembro as mulheres que lutam arduamente contra a pobreza e a violência, pela justiça, pela democracia e igualdade de género. Lembro as que lutam por uma sociedade em que o trabalho das mulheres, quer produtivo quer reprodutivo, seja devidamente reconhecido. Lembro as mulheres que lembram essas mulheres.

Pequena Cantiga à Mulher

Onde uma tem
O cetim
A outra tem a rudeza

Onde uma tem
A cantiga
A outra tem a firmeza

Tomba o cabelo
Nos ombros

O suor pela
Barriga

Onde uma tem
A riqueza
A outra tem
A fadiga

Tapa a nudez
Com as mãos

Procura o pão
Na gaveta

Onde uma tem
O vestígio
Tem a outra
A pele seca

Enquanto desliza
O fato
Pega a outra na
Enxada

Enquanto dorme
Na cama
A outra arranja-lhe
A casa

Maria Teresa Horta

quinta-feira, março 01, 2007



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos, Poema em Linha Reta

sexta-feira, fevereiro 23, 2007


















"Curioso é que nós passamos 40 ou 50 anos de uma vida a fazer determinadas coisas e um dia mais ou menos de repente, sem que renunciemos a nada do que fizemos, apercebemo-nos de que tudo deveria ter sido diferente. É apenas uma vaga sensação que se instala, sem que saibamos defini-la muito bem. No fundo sou muito mais contraditório e supersticioso do que quis admitir ao longo dos anos."
"Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta.
"Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica. Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os alibis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta."
" Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for."

José Afonso













JOSÉ AFONSO 1929 - 1987

Utopia

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

José Afonso

quinta-feira, fevereiro 15, 2007
















Eu vivo la longe,longe
Onde passam os navios
Mas um dia hei-de voltar
As aguas dos nossos rios
Eu vivo la longe,longe...

Hei-de passar na cidade
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias
Eu vivo la longe,longe...

Hei-de passar a cantar
Pelas ruas da cidade
Erguendo na mao direita
A espada da liberdade
eu vivo la longe,longe...

Manuel Alegre

terça-feira, fevereiro 13, 2007



















...Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma...

Ruy Belo, Orla Marítima

(Carrasqeira, cais palafítico)

sábado, fevereiro 10, 2007















Despenalização da IVG (II)
Aborto clandestino: um flagelo social
Assembleia da República, 20.2.97
28.12.2006


Portugal é o país da Europa onde mais abortos se praticam ilegalmente por ano, onde mais mulheres morrem por causa de abortos clandestinos e onde mais mulheres ficam mutiladas em consequência de abortos feitos em condições degradantes, sem um mínimo de higiene e de segurança. Este problema não é um problema do foro íntimo. É um flagelo social que exige uma decisão política. E essa responsabilidade é nossa, porque esta é a sede da representação nacional. Não se trata de saber quem é por ou contra o aborto. Ninguém aborta por prazer. Não se trata tão pouco de uma questão entre católicos e não católicos, crentes e não crentes. Trata-se de saber quem é por ou contra a adaptação da realidade jurídica à realidade social. Quem é por ou contra a persistência de uma proibição que está em contradição com a vida e que a vida, na prática, já revogou. Trata-se, ao fim e ao cabo, de saber quem é pela verdade na lei ou pela continuação nela da mentira e da hipocrisia. Este é que é o fundo da questão.


Manuel Alegre

segunda-feira, janeiro 29, 2007
















Quinto Poema do Pescador

Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos de ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.
Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.

Manuel Alegre

sexta-feira, janeiro 26, 2007




















Edmundo Pedro um homem inteiro.

O resistente antifascista conta, no seu primeiro volume de memórias, momentos marcantes até 1945, data em que foi libertado do campo do Tarrafal.

quinta-feira, janeiro 25, 2007
















SIM

A despenalização do aborto é uma questão de dignidade, de justiça social, de respeito pela saúde e pela intimidade e consciência individual.

A uma rapariga

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada de vida que fascina
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste de uma flor!...

Florbela Espanca, Charneca em Flor (1930)

terça-feira, janeiro 23, 2007















Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos.

domingo, janeiro 21, 2007















A poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora morreu hoje.
Aqui ficam algumas das muitas palavras que escreveu.

Do amor

Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares.

Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas (2002)

quinta-feira, janeiro 18, 2007



















Os dias de verão


Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

Como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

Sophia de Mello Breyner Andresen



terça-feira, janeiro 16, 2007


CONTRA A INJUSTIÇA, PELA DIGNIDADE

14 razões para votar Sim
Porque somos cidadãs e cidadãos responsáveis e comprometidos/as com a defesa dos direitos humanos e queremos intervir neste debate não como eleitoras/es de um ou outro partido político, ou mesmo sem partido, mas antes como pessoas conscientes dos seus deveres e direitos cívicos. [1] Porque está em causa o respeito pela dignidade, autonomia e consciência individual de cada pessoa e pelos princípios da igualdade e da não discriminação entre mulheres e homens. [2] Porque somos a favor de uma maternidade e paternidade plenamente assumidas e responsáveis antes e depois do nascimento. [3] Porque o direito à maternidade consciente e à saúde reprodutiva são direitos fundamentais. [4] Porque as mulheres, como os homens, têm direito à reserva da intimidade da vida privada e familiar. [5] Porque somos a favor da vida em todas as suas dimensões. [6] Porque é um elemento essencial do Estado de direito o princípio da separação entre a Igreja Católica ou qualquer outra confissão religiosa e o Estado. [7] Porque o que está em causa não é o 'direito ao aborto', nem ‘ser a favor do aborto’, mas antes o respeito pelas mulheres que decidem interromper uma gravidez até às 10 semanas, por, em consciência, não se sentirem em condições para assumir uma maternidade. [8] Porque a penalização do aborto dá origem à interrupção voluntária da gravidez em situação ilegal e insegura, o que tem consequências gravosas para a saúde física e psicológica das mulheres que a ela recorrem. [9] Porque uma lei penal ineficaz e injusta é uma lei constitucionalmente ilegítima. [10] Porque consideramos que a sujeição das mulheres a processos de investigação, acusação e julgamento pelo facto de fazerem um aborto atenta contra os valores da sua autonomia e dignidade enquanto pessoas humanas. [11] Porque nenhuma proposta de suspensão do processo liberta as mulheres da perseguição policial e judicial que antecede o julgamento, envolvendo sempre uma devassa da sua vida privada, e deixando a pairar necessariamente sobre elas uma ameaça de sanção que pode vir a concretizar-se no futuro. [12] Porque a proibição do aborto dá origem à gravidez forçada o que se traduz em violência institucional. [13] Porque uma lei que despenalize o aborto não obriga nenhuma mulher a abortar. [14] VAMOS VOTAR SIM NO PRÓXIMO REFERENDO.

Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim
http://cidadaniapelosim.blogspot.com/index.html

quinta-feira, janeiro 11, 2007



















As pedras

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
um coisa para dizer.

Maria Alberta Menéres, Conversas com versos