terça-feira, julho 10, 2007














O Carteiro de Pablo Neruda
pela Companhia de Teatro de Almada

Joaquim Benite Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras

O teatro sempre foi um dos parentes pobres da cultura no nosso país. Por isso não quero deixar de assinalar o prémio atribuído pelo governo francês ao encenador e amigo Joaquim Benite . Um reconhecimento internacional que prestigia a sua carreira e o teatro em Portugal. Parabéns

DV

domingo, julho 08, 2007





Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder, Aos amigos

segunda-feira, julho 02, 2007














A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos de Oliveira, Tarde

domingo, julho 01, 2007


















As nuvens que andam no ar
Arrastadas pelo vento
Foram buscar água ao mar
Pra regar em todo o tempo.

Pra regar em todo o tempo
Em todo o tempo regar,
Arrastadas pelo vento
As nuvens que andam no ar.

Lídia Jorge, Nuvens.

terça-feira, junho 26, 2007














O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta ...
Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo...
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol ...
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)

Alberto Caiero, O Guardador de Rebanhos

terça-feira, junho 19, 2007
















Cão

Cão passageiro, cão estrito
Cão rasteiro cor de luva amarela,
Apara lápis, fraldiqueiro,
Cão liquefeito, cão estafado
Cão de gravata pendente,
Cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
Cão ululante, cão coruscante,
Cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão ali, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal de poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moido de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção,
cão pré fabricado,
cão espelho, cão cinzeiro, cão botija,
cão de olhos que afligem,
cão problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill, Abandono Vigiado

domingo, junho 17, 2007


















Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

Miguel Torga, Livro de Horas

terça-feira, junho 12, 2007














O mar deixou o Alentejo
onde trouxe canções de oiro
mas volta a matar saudades
nas ondas do trigo loiro.

Se fores ao Alentejo,
vai vai vai vai vai.
Não te esqueças, dá-lhe um beijo,
ai ai ai ai.

Nas capelas e nos montes
há sorrisos de brancura
onde fala a voz de Deus
na voz da cal e da alvura.

Sobe o sol e abrasa a terra
a fecundar as espigas
à sombra das azinheiras
na dolência das cantigas.

Por lonjuras e planuras,
oh solidão, solidão,
eu quero paz no trabalho
p'ra poder ganhar o pão.

Popular do Alentejo, Se Fores ao Alentejo

sábado, junho 09, 2007













Beira Alta, fotografia de Sérgio Jacques

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

terça-feira, junho 05, 2007


















Não podemos falar de Aveiro e das suas gentes, sem referirmos o vulto do pensamento democrático e resistente antifascista, médico, crítico e ensaísta, Mário Sacramento.

Nasceu em Ílhavo em 1920, tendo cursado medicina na Universidade de Coimbra. Pelo exercício da sua actividade profissional, desde cedo procurou Aveiro, aqui se radicando em 1957. Humanista de coração e seguindo uma linha ideológica marxista, desde cedo se afirmou como opositor à governação salazarista, advindo-lhe daí várias prisões e prejuízos sociais e económicos. Figura de militância no Partido Comunista Português, esteve sempre presente (vivo ou morto) nos Congressos de Oposição Democrática realizados em Aveiro. Morreu em 1969. Temido pela força dos seus escritos que tantas vezes foram de difícil publicação pela acção controladora da PIDE, ainda assim deixou importantes contributos literários que, em grande parte, só viram a luz do dia após a sua morte. Desses contributos salientam-se: Na ante- câmara de Eça de Queirós (1943); Fernando Pessoa - poeta da hora absurda (1953); Fernando Namora - o Homem e a obra (1967); Há uma estética Neo-realista? (1968); Carta Testamento (1973); Diário (1975); Palavras de Mário Sacramento (1984)(...)

Serviços de documentação da Universidade de Aveiro

Este é parte do conteúdo da sua carta-testamento, cujas palavras definem bem o seu enorme carácter.

(...)Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais.

Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!

Não veremos o que quisemos, mas quisemos o que vimos. E este querer é um imperativo histórico. Há milhões de mortos a dizer-vos: avante!(...)

Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!


Mário Sacramento
, Caramulo, Pousada de S. Lourenço, 7 de Abril de 1967

















É reconfortante regressar à região que me viu nascer e perceber que os meus conterrâneos desbravam caminhos para a tornar cada vez mais bonita.
Aveiro é hoje uma cidade de tradição e futuro.

segunda-feira, maio 28, 2007













Sempre que vou ao Porto sinto-me tocado pela magia das margens do seu rio, que só as palavras do poeta são capazes de revelar.

Cidade

Meti-me por setembro fora, a caminho do fulgor das maçãs, deixando para trás os bruscos golfos da tristeza e uma luz de neve quebrada de vidraça em vidraça.
Contemplava a cidade das pontes pela última vez, envolvida por lençóis encardidos e uma névoa que subia do rio para lhe morder o coração de pedra.
Era um burgo pobre, sujo, reles até - mas gostaria tanto de lhe pôr um diadema na cabeça.

Eugéneo de Andrade, Memória doutro rio.

terça-feira, maio 22, 2007


















Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia I

sexta-feira, maio 18, 2007













A memória não morre...
Hoje é dia dos museus.


Maravilha-te, memória!
Lembras o que nunca foi,
E a perda daquela história
Mais que uma perda me dói.

Meus contos de fadas meus
Rasgaram-lhe a última folha...
Meus cansaços são ateus
Dos deuses da minha escolha...

Mas tu, memória, condizes
Com o que nunca existiu...
Torna-me aos dias felizes
E deixa chorar quem riu.

Fernando Pessoa, Minha Memória e Meus Dias.

quinta-feira, maio 17, 2007


















O REGRESSO DE TARTUFO

Os impostores são iguais em todo o mundo. Como um virus instalam-se e contaminam a sociedade.
O Tartufo voltou aos palcos pelas mãos do mestre João Mota, justamente para nos lembrar tal praga.
Já muito se falou sobre esta e outras obras geniais de Jean-Baptiste Poquelin (Moliére). Mas a propósito deste espectáculo que marca o 35º aniversário da Comuna, refiro a oportunidade da sua reposição no país onde, parafraseando o encenador, o 25 de Abril permitiu o aparecimento de tartufos a todos os níveis: social, económico e político.
Estejamos atentos...

sexta-feira, maio 11, 2007
















Onde está Maddie McCann’s?

Princípio 9º
Nenhuma criança deverá sofrer por negligência (maus cuidados ou falta deles) dos responsáveis ou do governo, nem por crueldade e exploração. Não será nunca objecto de tráfico (tirada dos pais e vendida e comprada por outras pessoas).
Nenhuma criança deverá trabalhar antes da idade mínima, nem deverá ser obrigada a fazer actividades que prejudiquem sua saúde, educação e desenvolvimento.

Declaração dos Direitos da Criança, Assembleia das Nações Unidas, 1959.

quarta-feira, maio 09, 2007















Artigo 5°
Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Declaração Universal dos Direitos Humanos

Guantanamo, até quando?

quinta-feira, maio 03, 2007


















Lá fora premeia-se a escrita em português. Desta vez o jornal londrino "The Independent" decidiu atribuir um importante prémio literário ao escritor José Eduardo Agualusa pela sua obra "O Vendedor de Passados". Parabéns

“Um nome pode ser uma condenação. Alguns arrastam o nomeado, como as águas lamacentas
de um rio após as grandes chuvadas, e, por mais que este resista, impõem-lhe um destino.
Outros, pelo contrário, são como máscaras: escondem, ilumem. A maioria, evidentemente,
não tem poder algum. Recordo sem prazer, sem dor também, o meu nome humano.
Não lhe sinto a falta. Não era eu.”


José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados.

terça-feira, maio 01, 2007


















Maio todo o ano... quando se
vai o Maio fica a canção.

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

José Afonso, Maio Maduro Maio.

http://www.youtube.com/watch?v=floEANiIjII

sexta-feira, abril 27, 2007


















Os sentimentos atrasam,
as paixões atrasam,
as instituições atrasam,
está tudo a mais, nesse demais sempre a
pesar sobre a existência, ela própria uma ideia
a mais,
filósofos, sábios, médicos, padres, pouco a
pouco de mansinho e brutalmente, têm-nos
feito esta vida falsa
porque não há profundidade nas coisas,
não há além, nem mais voragem do que a que
formos capazes de lá pôr
já,
sem ideia nem entidade,
sem imanência nem instância,
nada me espera para me pedir contas,
mas eu tenho contas a pedir a alguns ignóbeis
velhos labregos da doutrina,
contas a pedir por retardarem a vida
com os seus sentimentos, paixões, instituições.(...)

Antonin Artaud, os sentimentos atrasam, 1956